Artigo – Francineide Pires Pereira
Em debate recente na Universidade Federal do Piauí, o professor Edwar Castelo Branco, candidato a vice-reitor da chapa governista na UFPI, invocou a imagem de Honestino Guimarães, para afirmar sobre sua própria identidade de professor com “coração de estudante”. Em momento anterior, o mesmo candidato afirma ter sido escolhido em função de seu perfil acadêmico, por oposição à política (http://www.acessepiaui.com.br/geral2. php?id=88329).
Para quem não viveu anos de chumbo da ditadura, mas está minimamente interessado em conhecer de modo mais consistente as posições dos candidatos, vale a pena falar um pouco sobre Honestino Guimarães. Ele foi estudante de geologia da Universidade de Brasília (UNB) até quando, após o Ato Institucional nº 5 (AI-5), foi expulso desta, sendo impedido de terminar seu curso a apenas dois meses de sua conclusão. Eleito presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1971 e vivendo na clandestinidade, manteve a construção do movimento estudantil, apesar da insistência de familiares e amigos para que fugisse do país, a fim de não ser assassinado.
Preso em 1973, tornou-se mais um “desaparecido político”, triste metáfora para representar as pessoas assassinadas pelo regime militar. Seu corpo jamais foi encontrado e somente em 1996 aconteceu o reconhecimento público de sua morte e de outros “desaparecidos políticos” pelo Estado brasileiro.
Inúmeras homenagens fazem com que sua luta não tenha sido em vão. O Diretório dos Estudantes da UnB leva seu nome, além de diversos outros; há um museu Honestino Guimarães em Brasília; em 1979, o Congresso da Reconstrução da UNE foi realizado com uma cadeira vazia e, nela foi posta uma grande bandeira com seu rosto estampado, como um ato simbólico e uma homenagem a ele; em 1997, o então reitor da UnB João Cláudio Todorov outorgou o título de Mérito Universitário a Honestino; nas homenagens de que participa, Maria Rosa, sua mãe, lembra frase proferida por ele durante assembléia de estudantes na UnB: “podem nos prender, podem nos matar, mas um dia voltaremos e seremos milhões…”
Pois bem, a frase proferida por Edwar aconteceu em 30 de abril de 2008, 35 anos depois da prisão e morte de Honestino. Nesse entretempo, o mundo vive a chamada acumulação flexível, a “condição pós moderna” e o boom das teses pós modernas, tal como as de Edwar. Senão vejamos texto seu, que se propõe ser um “investimento no sentido de oferecer uma alternativa” ao quadro no qual a história do período da ditadura fica subsumido na oposição sociedade civil x militares. Então, “partindo do pressuposto de que aquela década corresponde, no caso da história do Brasil, ao período de emergência da pós-modernidade brasileira”, Edwar convida-nos a “olhar para fora do quadro tranqüilizador que as versões sobre os anos sessenta nos oferecem: às passeatas e palavras de ordem dos estudantes, às lamúrias e vociferações dos exilados e às reluzentes promessas do milagre brasileiro, este texto quer especular sobre desejo, prazer e dor” (CASTELO BRANCO, 2006, p. 01, dois primeiros grifos meus; último grifo do autor).
Esta é a visão maniqueísta do autor, na qual os movimentos culturais da tropicália são retirados das “sombras” e alçados à luz dos que têm “desejo, prazer e dor” (os/as militantes estudantis e de partidos, não?). Estes significam o “corpo-transbunde-libertário”, enquanto os militantes de movimentos políticos e estudantis – que fazem passeatas e gritam palavras de ordem, os últimos e que vociferam e se lamentam, os primeiros – representam o “corpo-militante-partidário” (CASTELO BRANCO, 2006, p. 03).
Após esta citação, terá alguma leitora e algum leitor dúvida quanto ao lugar atribuído por Edwar a Honestino Guimarães em seus textos? Em assim sendo, por que Edwar utilizou o símbolo do lamuriante e vociferante Honestino para representar a si próprio, ante a comunidade acadêmica da UFPI?
Vou apresentar aqui uma hipótese: o professor Edwar, conhecedor da tese pós-estruturalista, segundo a qual vivemos na era da produção de imagens como “simulacro” e ansioso para cumprir o papel atribuído a ele na campanha pelo grupo atual reitor – o de arrebanhador dos votos do CCHL, principalmente dos/as estudantes –, tentou ganhar adesão naquele momento, por que meio do uso da imagem de Honestino Guimarães. Em texto com título esclarecedor, podemos ver que simulacro é “uma ação cujo grau de imitação é tão perfeito que se torna quase impossível de detectar a diferença entre o original e a cópia, entre o real e o irreal” (FONSECA, 2007). Naquele momento, portanto, era conveniente o vínculo entre Edwar e um símbolo da resistência estudantil, assim como em momento anterior era conveniente a figura do acadêmico, não político.
Assim, quem iria reivindicar a diferença abissal entre Honestino e Edwar, já que “devido ao acúmulo de imagens e simulações [as pessoas] possuem apenas uma experiência a compartilhar, que é a alucinação desestabilizada e estetizada da realidade”? (BAUDRILLARD apud SOARES, 1996, p. 01). Quem poderia indignar-se com tal oportunismo se, da perspectiva do professor Edwar, “no mundo dos simulacros, tudo é uma questão de provar a política pela ‘falsa política’; de provar o programa político e os discursos, pela ‘falsa promessa’”? (CONNOR apud Soares, 1996, p. 01).
A propósito, a aposta no eterno presente pós-moderno do professor citado pode encontrar um caminho de resistência: a nossa aposta na memória histórica. E então, ao invés de apostar no simulacro, podemos dizer com Honestino Gumarães, que morreu enfrentando os poderosos e seus prepostos, sua frase favorita: “os poderosos podem matar uma, duas, até três rosas, mas nunca deterão a primavera” (atribuída a Ernesto Guevara). Ao final, podemos nos sentir autorizadas/os a solicitar ao professor Edwar que respeite a memória do movimento estudantil e a inteligência da comunidade acadêmica da UFPI do presente! O oportunismo, o carreirismo e o sucesso a qualquer custo são atos incabíveis para caracterizar a memória de Honestino Guimarães, assim como para incontáveis pessoas da comunidade acadêmica da Universidade Federal do Piauí. Também podemos dar resposta soberana a toda esta farsa, resgatando a nossa dignidade e fazendo vencer a qualidade, a transparência e a ética nas eleições do dia 07 de maio vindouro.
REFERÊNCIAS
Fonseca, Rui Pedro. A arte como discurso. A identidade como mercadoria. Sociologia, Problemas e Práticas, n.º 53, 2007, pp. 117-133. Disponível em: <http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/spp/n53/n53a06.pdf>. Acesso em: 01/05/2008
Castelo Branco, e. de A. Ele é o homem. Eu sou apenas uma mulher: corpo, gênero e sexualidade entre as vanguardas tropicalistas. VII Seminário Fazendo Gênero. 28-30/08/2006. Anais, Seminário Temático 16.
Soares, Holgonsi. Simulacro: verdade ou mentira pós-moderna? Disponível em: <http://www.angelfire.com/sk/holgonsi/index.simulacro.html>. Acesso em: 01/05/2008.
Francineide Pires Pereira
Professora Adjunto do Departamento de Serviço Social da UFPI; Doutora em Ciências Sociais pela PUC/SP