Neste último mês acompanhei, por meio de alguns jornais nacionais e internacionais, o processo eleitoral na Itália, o qual foi concluído esta semana com a eleição, pela terceira vez, do fascista Sílvio Berlusconi.
Na Universdiade Federal do Piauí (UFPI), o processo eleitoral vem acontecendo há mais ou menos um mês. Desde então, o debate sobre as condições de funcionamento da instituição tem sido importante para evidenciar as dificuldades e os problemas enfrentados nos mais diferentes espaços da mesma. Entretanto, como no processo eleitoral italiano, naquele da UFPI, “Há uma recidiva perversa do impedimento da livre expressão, uma volta do clientelismo apadrinhador, de uma espécie de servidão voluntária, de taxações ilegais, de puro desrespeito” (NETO, 2008). Tudo isto torna os discursos presentes em ambos os processos muito semelhantes, conforme explicitarei nas linhas seguintes.
A semelhança entre o discurso de Berlusconi e aquele do atual reitor da UFPI quanto às razões que os levaram a se candidatarem à reeleição, salta aos olhos. A exemplo, a arrogância como este último se refere ao nosso percurso na instituição, a patrulha quantitativista ao nosso fazer e a imposição, a qualquer custo, de uma única lógica acadêmica.
Berlusconi foi eleito defendendo a reconstrução da Itália e, para tanto, afirmando claramente ser contrário às diferenças políticas e culturais para que a “nova” Itália seja reconstruída. O reitor da UFPI, mesmo com todas as manifestações de segmentos da comunidade acadêmica sobre seu desrespeito às diferentes formas de pensar a política acadêmica na instituição, age como se nada estivesse acontecendo. Desse modo, tal como Berlusconi, nega as diferenças políticas e culturais.
Uma boa demonstração deste desrespeito tem sido a forma de tratamento dada aos que pensam diferente. Chama-nos de CACIQUEs e não apenas isto, impõe-nos, na instituição, uma condição de GADO. O termo CACIQUE, a propósito, é empregado de forma pejorativa, distante daquele presente na cultura de nossos ancestrais. A condição de GADO é-nos atribuída, quando faz referências aos nossos modos de fazer e construir a universidade, desrespeitando as particularidades presentes nesse fazer, as instâncias deliberativas e desconsiderando que este processo de construção passa por cada um de nós: professores, alunos e servidores.
O rompimento com esta imagem de que quem se posiciona de um determinado “lado” é CACIQUE, passa pelo resgate do nosso longo processo de aprendizagem sobre liberdade. Eu, como muitos professores, alunos e servidores que hoje estão na campanha do professor Solimar, aprendemos a ser livres e para nós é preciso defender a liberdade, sem esquecer a política. Por isto, a garantia da liberdade pressupõe o respeito às instâncias acadêmicas e a desmonopolização da verdade.
A defesa da liberdade, sem esquecer a política pressupõe a compreensão de que a democracia é a liberdade circunscrita no interior das regras institucionais, daquilo que definimos como Estado de Direito. É exatamente sobre este aspecto que devemos insistir: o processo de aprendizado de democracia é permanente.
Estou nesta campanha, não porque sou CACIQUE ou GADO, conforme tenho ouvido e lido, mas porque nela tem diálogo e como sou convicta de que o diálogo só pode ser conduzido por indivíduos livres, aqui estou. Estou também, porque penso e quero uma universidade livre, processo e luta dos quais participei e ajudei a construir como estudante e quero agora ajudar como professora. Não acredito na neutralidade política, pois sei que este discurso serve para eleger os Berlusconis da vida. Por isto, não me furtei a me envolver nesta campanha e vivo com paixão cada vitória construída.
Segundo meus princípios, a democracia rege-se pelo respeito à dignidade e à liberdade humanas. Acredito na idéia de que a democracia é a condição sine qua non para construirmos um mundo melhor e garantir melhores condições de vida. Desta forma, num processo eleitoral, o voto é uma arma e o argumento é uma das formas de construir consensos. Obviamente, é preciso ter consciência de que estamos num espaço institucional. Do contrário, o tumulto e as soluções antidemocráticas serão nossas armas. O recurso às soluções antidemocráticas, favorece o perigo: preciso vencer a qualquer custo; sou a perfeição! Só EU sei fazer! Você não conhece a universidade.
Ao me referir ao tumulto, não quero anular a existência do conflito, mas também não os igualo. A base do conflito é a diferença e esta tende ao aperfeiçoamento das idéias que devem ser construídos tendo como fundamento a democrática: a idéia de que os homens são imperfeitos e por isto ninguém tem o direito de impor aos outros suas próprias idéias. As idéias penso, devem ser objeto de discussão, nunca de imposição.
Professora Dra. Lila Cristina Xavier Luz
Departamento de Serviço Social




